Relit-Rom

Revisões literárias: a aplicação criativa de romances velhos (sécs. XV-XVII)

 

 

 

O projeto Relit-Rom aplica métodos de moldura filológica, comparatista e intertextual para rever a classificação, assim como para identificar e examinar os engastes de versos de romances em obras com assinatura portuguesa de teatro, lírica, historiografia, entre outros géneros. Utiliza, por outro lado, recursos e ferramentas das Humanidades Digitais de modo a sistematizar a investigação. A primeira fase abrangeu o apuramento do exame filológico de todos os engastes cuja proveniência romancística se encontra identificada nos “Romances Velhos em Portugal” de Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1907-1909). As duas seguintes englobarão as interpolações sem origem identificada no catálogo da filóloga, assim como os engastes detetados posteriormente à publicação do inventário. Em todo o caso, a metodologia do programa de trabalho baseia-se nos seguintes procedimentos que se refletem na estrutura da ficha da Base de Dados.

Inicialmente, concentra-se na descrição e na análise das intercalações no contexto do fragmento literário em que surgem, bem como no da respetiva composição quadro. Para o efeito, considera a impressão da obra coeva à vida do autor, na qual os intertextos figuram pela primeira vez – nem sempre fazem parte da princeps. Não existindo esse impresso, toma a primeira edição crítica de referência ou, à falta dela, o primeiro documento em letra de molde conhecido. Incide então sobre a(s) língua(s) da interpolação e os nexos discursivos e semânticos da forma intercalada com o verso romancístico de proveniência, para seguidamente atender ao género e à autoria da composição e obra quadros.

Num segundo momento, recapitula e atualiza a identificação e as fontes do(s) romance(s) de proveniência do engaste, a partir dos testemunhos poéticos antigos, fixados em forma autónoma ou em glosas, em letra impressa (livros e folhetos de cordel) e manuscrita que se encontram em boa parte inventariados nos quatro volumes do Manual bibliográfico de Cancioneros y Romanceros (Rodríguez-Moñino, 1973 e 1977), no Nuevo Diccionario bibliográfico de pliegos sueltos poéticos (Siglo XVI) (Rodríguez-Moñino, 1997) e no Suplemento al Nuevo Diccionario bibliográfico de pliegos sueltos poéticos (Siglo XVI) (Askins-Infantes, 2014), assim como nos três tomos do Ensayo de una bibliografía analítica del romancero antiguo (Piacentini, 1981-1994).

Este exame reveste-se de especial complexidade, uma vez que, por exemplo, certos engastes têm origem em versos partilhados por mais do que um romance e em expressões comuns a romances e a adágios ou a frases feitas, não podendo saber-se com rigor – sobretudo em certos casos – se os enunciados foram apropriados pelos romances ou se resultaram da autonomização de versos romancísticos. Face a esta problemática, é sempre descrita a diversidade das fontes da expressão de proveniência, quer duplicando o grupo Proveniência textual antiga da Base de Dados, quer introduzindo observações nas respetivas Notas.

O escrutínio também se depara com o facto de nem todos os romances terem sido legados pela imprensa antiga ou por velhos manuscritos, pelo que se considera o repertório conservado pela tradição oral moderna portuguesa (e inclusivamente pan-hispânica), já que a persistência da maior parte dos romances tradicionais dos nossos dias comprova a antiguidade dos temas – e contribui para uma reavaliação da antiga familiaridade portuguesa com os romances além do domínio do impresso.

Concluídos os procedimentos descritos e sistematizada a investigação na Base de Dados, torna-se possível mapear o isomorfismo e a polimorfia do artifício criativo do engaste romancístico e abordá-lo sob diversos ângulos críticos e teóricos (ver, em Estudos, os trabalhos já realizados e em curso). Possibilita ainda a aproximação ao romanceiro antigo em Portugal ambicionada por Carolina Michaëlis de Vasconcelos ao catalogar os versos das baladas mais ou menos recriados por autores portugueses – certos de que os seus públicos os reconheciam e sabiam interpretá-los nos novos contextos literários.

 

Bibliografia

Askins, Arthur L.-F. y Infantes, Víctor (2014). Suplemento al Nuevo Diccionario bibliográfico de pliegos sueltos poéticos (siglo XVI) de Antonio Rodríguez-Moñino, Vigo, Editorial Academia del Hispanismo.

Piacentini, Giuliana (1981-1994). Ensayo de una bibliografía analítica del romancero antiguo. Los textos (siglos XV y XVI), 3 vols., Pisa, Giardini.

Rodríguez-Moñino, Antonio (1973). Manual bibliográfico de Cancioneros y Romanceros (Siglo XVI), 2 vols., Madrid, Castalia.

_____ (1977). Manual bibliográfico de Cancioneros y Romanceros (Siglo XVII), 2 vols., Madrid, Castalia.

_____ (1997). Nuevo Diccionario bibliográfico de pliegos sueltos poéticos (siglo XVI), ed. corregida y actualizada por Arthur L.-F. Askins y Víctor Infantes, Madrid, Castalia.

Vasconcelos, Carolina Michaëlis de (1907-1909). “Estudos sobre o Romanceiro peninsular. Romances Velhos em Portugal”, Cultura Española, VII, 1907, pp. 767-803; VIII, 1907, pp. 1021-1057; IX, 1908, pp. 93-132; X, 1908, pp. 435- 512; XI, 1908, pp. 717-758; XIV, 1909, pp. 434-483; XV, 1909, pp. 697-732 (artigos compilados em Estudos sobre o Romanceiro Peninsular. Romances Velhos em Portugal, 2ª ed., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934, reimpresso no Porto, Lello, 1980).